18/04/2012

O Abandono dos Outros. O Abandono de Si


Nunca havia precisado entrar em posto de saúde pública em São Paulo. Não quero me vangloriar, porque não é o caso. Até recentemente tinha alguma condição de pagar por um plano particular, mas por decisões pessoais (que cabem melhor em outro momento) abri mão deste benefício e restou o tão difamado “sistema público de saúde brasileiro”.

O atendimento mesmo através de planos particulares nunca foi dos melhores: já conheci profissionais muito ruins, consultas cuja duração não passou de três minutos e muita espera ao ponto de me sentir desrespeitada.

Mas ainda assim, não havia sentido tão de perto o que é o abandono. Para completar a experiência negativa, minha noção de sistema público era um tanto diferente, já que vim de uma cidade pequena, com razoável organização dessas entidades para os padrões brasileiros.

A estranheza começa pela estrutura, ou pela falta dela: móveis velhos, tudo parece improvisado; papéis se espalham e se amontoam pelos cantos; computadores lentos e desatualizados na época da agilidade e da pressa; arquivos de papel, denunciando a burocracia que permeia toda a mentalidade do sistema público nacional.

E tem as filas. Para tudo há fila. Para pedir informação, para pegar remédio, para ser atendido. Na maior parte das vezes a resposta é pegue uma senha, entre na próxima espera e aguarde.

E pessoas. Essas foram as mais intrigantes.  

À primeira vista, parece que estão sobrando, perdidas e amontoadas como os papéis nos cantos, fora de harmonia. Mas então se percebe certo ritmo, certa coreografia. Parece que cada um tem seu papel ali. A sensação final é que existem regras de convivência sim, e elas só são claras para os participantes e integrantes deste jogo.

Mas tudo é muito estranho. E ineficiente. Bem ineficiente.

Neste dia, havia uma moça passando mal. Seus olhos, bem vermelhos e lagrimejantes, quase não ficavam abertos. Seu corpo estava jogado sobre o banco de madeira. A colega de trabalho que a acompanhava aguardava na fila(!!!) para pedir informação.

Só depois do pedido desesperado da moça-jogada é que ela toma uma atitude e fala com o atendente, passando na frente de outra pessoa.

Advinha a pergunta do atendente: “ela tem carteirinha do SUS? Senão, eu preciso fazer uma antes”. Enquanto isso, a moça-jogada passava mal.

Essa tal carteirinha não é nada mais que um código de barras que reduz cada pessoa a uma sequência numérica. Nada mais sintomático que a necessidade de reduzir pessoas a números. Retirar a personalidade talvez tenha sido a maior engenhosidade deste sistema. Números podem morrer, é só acrescentar mais uma casa, que outro nasce em segundos. Nada mais emblemático que a despersonificação de cidadãos.

Voltando à moça-jogada, acharam o seu bendito número perdido na bolsa e ela seguiu para a próxima etapa. Outra espera. Outro descaso.

A moça-jogada, que foi cambaleando pelo corredor, encontrou uma enfermaria. E mais uma cadeira.  Não havia médicos, não havia instrumentos, não havia atenção. Tudo que ganhou, após mais longos minutos de espera, foi ter sua pressão medida.

“Você fica aqui que vou chamar um médico”. Foi a instrução ouvida pela única enfermeira no local. A senhora-de-jaleco saiu para o fundo do corredor carregando uma chave. A moça-jogada que mal tinha forças para reclamar, agora se jogava sobre uma cadeira de plástico branca-encardida.

Meia hora depois a senhora-de-jaleco retorna. A mesma chave na mão. Retorna pelo mesmo corredor. Entra na sala no final do corredor, na frente. A sala que sempre esteve aberta. Fala com o médico que sempre esteve lá. Ele, um pediatra, é chamado para atender a moça-jogada na cadeira encardida.

Não pude ver seus olhos. Se a moça-jogada olhou com alívio a chegada de alguém. Ouvi a voz do médico através da porta aberta. Não era possível ouvir a outra voz de tão fraca. Ouvi frases como "dói aqui, você sente isso, espera aqui".

E assim, mais de quarenta minutos depois de sua entrada, a moça-jogada foi se jogar numa cadeira reclinada estofada de cor preta. Todo esse tempo para receber um comprimido branco e um copo de água num copo plástico transparente. “Fica com o copo”, diz a senhora-de-jaleco (agora) prestativa e acatando a decisão (e a responsabilidade) do outro. “Ainda preciso te dar ...”

As palavras se perderam no ar. Sai dali. O meu assunto estava encerrado, pelo menos por ora.

Na minha frente, a fila inicial se estendia ainda mais pela porta de entrada. Eu desviava de mais olhos, com medo que encontrasse mais olhos-vermelhos e moças-jogadas. Eu só sentia o desespero de saber o que é estar mal, de sentir medo que a sensação se agrave, de precisar de alguma coisa que faça seu corpo reagir. De pedir ajuda e encontrar o vazio. Enfim, senti medo de ser eu a tal a moça-jogada.

Talvez o medo tenha sido maior ainda. Senti o medo de depender de pessoas tão anestesiadas pela doença e dor que não conseguem reagir. Não conseguem sair deste ritmo lento e estagnado de agir. Desta burocracia inata. De apenas respeitar regras internas que claramente não funcionam em detrimento do respeito ao ser humano.

Fiquei assustada com a apatia. Com o descaso. De ver tanta falta de condição. De pessoas incapazes de olhar nos olhos vermelhos da moça-jogada e encontrar a dor. E reagir a isto. Ou simplesmente fazer o seu trabalho.

Aprendi que não se deve ir a posto de saúde em busca de pronto-atendimento. Ali, pessoas apáticas aprenderam que papéis e números são mais relevantes que pessoas. Afinal, não se pode esperar mais que abandono destas pessoas que já abandonaram a si mesmas.

Me pergunto ainda onde isso começou. Será que talvez essas pessoas apáticas não foram abandonadas antes por um sistema ineficiente, burocrático, desigual?

O abandono de si mesmas como reflexo do abandono pelos outros. Aí, quem sobra na hora de recorrer em caso de dor e desespero?

02/04/2012

Hoje






Mais um atirador ganha as páginas internacionais de notícias. Uma história de vida em outro blog mostra como a existência pode ser muito mais sofrida e dependente.

Eu sinto, e choro. Dia doído, vazio, solitário.
Vai passar. Amanhã chega, amanhã...

30/03/2012

Todas Elas Juntas Num Só Ser


Essa música dispensa preleções. Deguste!

Encontrar-se em Perder-se


Existem dois sentimentos que sempre me invadiram:

O primeiro é perder-se.

Perder-se é fácil, é comum. Não precisa de muito. Uma distração, a falta de uma placa, a confusão em interpretar sinais, e pronto: ele invade. E faz questão de deixar bem claro que está ali de muita má vontade, e insiste em perturbar e atazanar até que uma providência seja tomada. Fica cutucando os pensamentos até que eles achem uma solução para sua condição.

 O outro, o encontrar-se, é bem diferente.

Esse é bem difícil, e fugaz. Não tem jeito certo para ele aparecer. Às vezes é natural e casual. Em outras, é necessário uma longa e tortuosa busca, e muito esforço. Ele é discreto, e faz questão de não fazer muito alarde, nem quando está perto, nem quando está bem distante. Ele é quieto, e sorridente. Não faz tormentas; ao contrário, se junta com os pensamentos e vai brincar de construir sonhos.

Por muito tempo, eu travei uma batalha dura. Combatia o primeiro e buscava, sem sucesso, o segundo. Deseja eliminar completamente o tal primeiro, uma praga que só trazia insônia. E sonhava com a quietude e paz do segundo.

E fui derrotada toda vez.

Demorei bastante, tempo demais talvez, para perceber a verdade óbvia: que um não vive sem o outro. Opostos e complementares. Yin e yang, dual e complexo como todas as coisas que existem.

Querer encontrar-se sem se perder é desumano, é irreal.

É preciso navegar. É preciso colecionar arranhões até descobrir quais portas tem o tamanho certo para você passar.

É aprender que opiniões são apenas opiniões, sujeitas ao potencial e limitação de quem as deferiram, e jamais leis e regras imutáveis. É dizer ao mundo quem você é com suas palavras e neologismos, ao invés de se apegar a rótulos e clichês para tentar traduzir sua essência. É ter opinião e certezas; sempre sabendo duvidar de suas opiniões e certezas.

É entender, na profundeza de sua alma, que mudar é essencial. É dizer “não sei” ao universo, com a humildade de ser alguém que realmente tem a aprender. É esperar uma resposta, mesmo que indireta e simbólica.

É aprender que o importante não está onde as respostas levam, mas sim a capacidade de gerar as perguntas que fazem você se mover. E que, sorrir deslumbrado com os sonhos só é mágico porque uma vez você também teve medos, pesadelos e chorou.

É compreender , enfim, que a verdadeira essência está em encontrar-se no processo de perder-se.

Lenine, "Do It"

26/03/2012

Para Você, Vendo Tudo

Para você, vendo tudo. Menos minha alma.

Veja bem, não é pessoal. É questão de princípios, de corrigir erros passados.

No começo, lá atrás, não me importei muito com ela. E a colocava a toda prova. De disfarçar ânsia de vômito ao comer coisas detestáveis para agradar, até a sorrir quando o contexto social exigia, mesmo que só para encobrir lágrimas.

Então aprendi. E resgatei minha alma do mercado futuro da salvação e a investi no mercado de degustação de curto prazo. O ganho de capital pode não ser lá grande coisa, bem pelo contrário, mas a diversão é garantida!

Então, você pode contar com minha capacidade intelectual, com a força de meus braços, ou ter minhas ironias gratuitas. Pode compartilhar do meu gosto acentuado por cachorros e gatos. Pode até rir da minha cara ou das minhas roupas nada estilosas.

Mas, não vai ter minha alma.

Agradeço a atenção. E tenha um ótimo dia.


A Difícil Fase De Mudanças - parte 1


Você já deve ter passado por isso. Começa com uma dor insuportável. Fica tão ruim assim pelo longo tempo que a, indevidamente, é suportada.

De tomar caminhos errados, daqueles que deixam o estômago doendo e os olhos brilhosos de lágrimas, e não corrigir a rota. Daquela inocente e fatal ideia de seguir sempre em frente, sem parar. O problema é que os caminhos não se mostram completamente à primeira vista. Eles vão derivando a cada passo, a cada curva.

Chega o tal dia, e você se vê lá, no meio. Sem se lembrar de quanto tempo passou até ali. Tentando sentir o gostinho bom daquela trilha tão escondida e tão mágica que acabou ficando para trás (afinal, o dever chamava!).

Então, você para. Ou melhor, param por você.

Suas pernas não te obedecem mais. Suas entranhas imploram por atenção, e conseguem! Seu corpo se revolta. E você cede.

Se sua alma já havia sido vendida em acordos politicamente corretos no passado, não importa. Seu corpo, não se deixa levar tão fácil. Ele é esperto, é físico; ele sabe que tem força, que tem presença. Você cede, porque não há outra escolha neste ponto.

Ao escolher abandonar a dor dilacerante, você toma um caminho sem volta. Ela nunca mais vai dominar seu território. Porém, adiar mudanças será similarmente impossível. O fim da dor significa também o fim da acomodação, da inércia, do “tanto faz”.

É o começo de uma nova era. E de novas dores!

Sim, claro! Viver não acontece sem dor, sem barreiras, sem arranhões. Quem gostaria de viver dentro de uma bolha (física ou psicológica)?

Acostumar-se com a dor é o único caminho constante e indisfarçável. Cada dia seu corpo se torna mais resistente e sua alma mais forte. Cada dia a tolerância à dor aumenta ao mesmo tempo em que a consciência se torna mais atenta. No final, mesmo sabendo que você pode aguentá-la, você decide reagir e não tolerar mais.

Acostumar-se á dor é também um ato de coragem. É uma declaração, para o lado de fora, de que você está preparado do lado de dentro. Que venham socos e pontapés, que venham cortes, ameaças, gritos. Eu também tenho voz, e posso gritar. Eu também tenho unhas, e posso me defender. Eu também tenho vontade, e vou viver.

Eu tomei esse caminho há alguns anos. E dói...como sempre doeu. Mas eu também eu sorrio, gargalho, sou feliz...como nunca antes na história deste país.

E eu vivo, eu sou ser vivo. Porque eu erro, porque eu choro, porque eu sofro e porque dói. Mas porque eu escolho viver apesar e por causa disso tudo.

Não concorda, então oh!

18/10/2011

Sustentabilidade Vintage

Retomar o passado é solução?

Cada dia mais ouço comentários do tipo: “café de pano, aquele da vovó, é mais sustentável que os de papel...”

A minha primeira impressão foi pensar que éramos mais sustentáveis no passado que agora, na época que sustentabilidade se tornou a palavra da vez... Mas será verdade?

Nos tais tempos dos meus avós, não havia preocupação com a saúde dos empregados, por exemplo. Meu avô lidou sua vida inteira com problemas respiratórios fruto do trabalho em fornos de cerâmica sem nenhuma proteção... Hoje seria descaso, na época era padrão!

A minha impressão mais marcante é que não éramos mais sustentáveis. Apenas adotamos um caminho de desenvolvimento errado!

Muita coisa no passado era feita daquela forma por falta de conhecimento, oportunidade, aquele velho jogo da tentativa e erro.

Era como abrir caminho numa floresta. Você pequeno e sem muita visão, vai tateando, enxergando apenas alguns palmos a sua frente, abrindo, com esforço individual, um espaço para você passar.

Então inventam a globalização, os meios de comunicação, seu filho ganha um computador e o mundo do perrengue se torna da informação!

Abrir caminho fica mais fácil agora que se conta com ajuda e disposição de muito mais gente que só você e seu limitado grupo social.

Mas aí está o problema: não perdemos velhos hábitos. A visão, ora limitada e individualista, permaneceu!

Aprendemos a trocar informações e conhecimentos, intangível em grande parte. Talvez daí tenha ficado essa impressão de distanciamento e pouca tangibilidade nas ações derivadas desse conhecimento todo.

Permanecemos refém de um caminho que não privilegia em nada a visão sistêmica, apenas o resultado mais imediato. Enxergar mais (longe, melhor etc) se tornou uma ambição, não um resultado...

Aí minha preocupação muda e passo a ficar preocupada com os comentários como esse lá de cima... Por que retomar o passado sem questionamento? Por que não olhar para frente?

Adquirir conhecimento tem que vir com história. O “por que sim” é maior vilão que o “não sei”.